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Maria Luísa Paiva Maria Luísa Paiva

Maria Luísa Paiva

62 anos


A beleza de se ser humana

Trabalha com o corpo humano, com as (im)perfeições, com as inseguranças e com o esforço por um aspeto irrepreensível. Sejam quais forem as motivações e as mudanças que se procuram. Maria Luísa, na sua clínica de estética, recebe todos os dias clientes que procuram aperfeiçoar, quando ela própria, debaixo da roupa, traz marcas que não consegue apagar.

Diagnosticada há 35 anos, Maria Luísa procura, ainda hoje, as soluções para uma resposta que já tinha mesmo antes de ir ao médico: “No ramo da estética, estudamos tudo o que são problemas de pele, por isso já estava elucidada sobre o que era a psoríase.”

Aquilo que era, à partida, um momento feliz da vida de Maria Luísa, com o nascimento do seu primeiro filho, tornou-se no princípio de duas novas aventuras. Por um lado, a maternidade, com problemas inesperados para a criança logo no pós-parto; por outro, a doença, que surgiu num momento de maior stress e que a acompanhou durante toda a vida.

O problema surgiu na nuca, primeiro, mas a esteticista desvalorizou: “Pensei que fosse alguma descamação do champô.” Passado um mês, as manchas apareciam noutra zona do corpo; em dois meses, noutro, “e assim se foram espalhando, pelo corpo todo”.

Fico muito condicionada para me mexer
Fico muito condicionada para me mexer

Ao contrário de outros pacientes, que encontraram acompanhamento especializado e tratamento adequado, Maria Luísa não conseguiu ter o controlo do seu tratamento e, consequentemente, da sua psoríase. Não por falta de procura, porque, reitera, já foi a “muitos, muitos médicos”, e foi seguida, durante anos, por especialistas. Um primeiro tratamento, que parecia ter resolvido a psoríase, revelou-se problemático para outros sistemas: “Cheguei a fazer quimioterapia, mas nuns exames a médica apercebeu-se de que me estava a atacar o fígado.” Perceberam, portanto, que o tratamento teria de ser interrompido.

Desde aí, referiu já à médica que a acompanha a possibilidade “de umas injeções biológicas”, mas a recomendação foi noutro sentido: comprimidos, que seriam um passo intermédio até chegar ao tratamento biológico. Mas o tratamento tardou, adiou-se, a vida de Maria Luísa deu mais uma volta e acabou por não conseguir voltar a ser seguida em especialidade. A manutenção, neste momento, é feita apenas “com um spray, à base de cortisona”. A vontade de Maria Luísa pede mais, o corpo dela e as manchas que lhe cobrem a maioria da pele também.

Há alturas em que fico quase com uma depressão
Há alturas em que fico quase com uma depressão

Aos sintomas físicos, como a comichão, a vermelhidão e as feridas, junta-se ainda em Maria Luísa a tristeza de não conseguir ver uma solução. Com um negócio no ramo da beleza e da estética, é uma mulher que se gosta de cuidar e que gostava de poder sentir-se à vontade para as coisas mais banais, como ir à praia, usar uma saia ou uma camisola de manga curta.

Sabe, também, que a psoríase é uma doença “de caráter autoimune”, e que ao ter o sistema imunitário mais enfraquecido fica também “mais em baixo”. No olhar de Maria Luísa, encontramos em simultâneo alguma desistência e uma imensa resiliência: “Temos de continuar, não é?”

Procuro explicar às pessoas que isto não se pega, porque ainda há pessoas que têm problemas com isso
Procuro explicar às pessoas que isto não se pega, porque ainda há pessoas que têm problemas com isso

Numa profissão de alguma exposição e de grande proximidade com os clientes, a esteticista não sente necessidade de esconder que tem a doença, mas evita usar roupas mais expostas. O cuidado não lhe evitou situações desagradáveis, como a de uma cliente que lhe pediu para que “não tocasse com os braços”, onde têm algumas manchas de psoríase, na sua pele. De nada valeu o à vontade e a explicação de que a psoríase não é contagiosa, a reação foi a mesma: “Nunca se sabe”… Depois daquele dia, a cliente nunca mais voltou. Ainda assim, Maria Luísa não desiste: “Eu tento elucidar as pessoas, agora se elas aceitam ou não, também tenho de respeitar.”

É sempre bom saber o que se passa com o nosso corpo, porque tudo pode acontecer, a psoríase ou outro problema de saúde…
É sempre bom saber o que se passa com o nosso corpo, porque tudo pode acontecer, a psoríase ou outro problema de saúde…

Ainda que o caso de Maria Luísa seja bastante severo, quer pela percentagem de pele afetada como pela quase total ausência de acompanhamento médico, a mensagem que prefere deixar a outros doentes com psoríase é em tom positivo: “Gostava que tivessem calma e que tivessem esperança, porque talvez um dia haja um tratamento inovador que possa melhorar, que possa curar…”

Para Maria Luísa, é preciso “mentalizar-se” com o diagnóstico, mas também manter o foco no futuro e no que dele poderá advir. O discurso prova que a psoríase a ensinou a valorizar, também, as pequenas conquistas, como as mangas curtas no verão, que apenas teve oportunidade de usar quando fez o tratamento que foi obrigada a interromper.

Ainda que, ao espelho, veja um corpo marcado pela doença, Maria Luísa não deixa de reconhecer a beleza no ser humano: “O nosso corpo é muito complexo, mas bonito.” Em jeito de mantra, para o próximo mas também para si mesma, vai repetindo:

Tenho de me adaptar, e tenho de aceitar. E tenho de acreditar que, um dia, isto terá um fim
Tenho de me adaptar, e tenho de aceitar. E tenho de acreditar que, um dia, isto terá um fim

Ver na Pele

A psoríase vê-se. Mas como é que se sente? Como é que lidam os familiares, os amigos, a sociedade? Helena, Maria Luísa, David, Rita, Luís e Anabela inspiram-nos com os seus testemunhos, em conversas francas e descontraídas.