Sábado por Cofina Boost Content

Partilhe nas Redes Sociais

com o apoio de

Janssen
Anabela Figueiredo Anabela Figueiredo

Anabela Figueiredo

55 anos


O ímpeto de acabar com assimetrias na saúde

Fala como se já nos conhecesse há muito tempo e, ainda que vá focando pontualmente o nervosismo por nunca ter dado o seu testemunho, a sensação que nos transmite é de calma. Traz o à-vontade para a conversa e, ainda antes de começarmos a gravar, vai dando pistas sobre a preocupação com a saúde mental, efeito colateral de doenças como a covid-19 ou a psoríase.

Graceja sobre os colegas, “se vissem não acreditavam!”, mas o discurso de Anabela é seguro e focado, e não nos deixa margens para dúvidas: sabe que, na psoríase como noutras doenças, “não estamos todos no mesmo barco, estamos todos no mesmo mar mas com barcos muito diferentes”.

O primeiro impacto com o diagnóstico, recorda, foi “muito negativo”. Imediatamente depois do nascimento do filho, aos 32 anos, Anabela começou a notar “problemas nos cotovelos”, que depois se estenderam a outras zonas. Foi logo ao dermatologista, que diagnosticou psoríase. Antes disso, recorda, pouco sabia sobre a doença, uma vez que não conhecia ninguém próximo com a patologia.

No momento do diagnóstico, as preocupações de Anabela centraram-se tanto no que lhe iria acontecer a ela, como no medo de transmitir ao filho a doença, uma vez que a componente genética não é alheia na psoríase. Sentiu, recorda, “uma grande confusão interior”.

Primeiro estranhamos e depois entranhamos, não é?
Como em tudo na vida…
Primeiro estranhamos e depois entranhamos, não é?
Como em tudo na vida…

Anabela depressa percebeu que seria mais fácil lidar e combater o estigma com conhecimento, motivo pelo qual sempre foi explicando às pessoas mais próximas que é doente psoriática: “Para perceberem por que motivo os meus cotovelos e o meu couro cabeludo estavam sempre a descamar.” De pessoas não relacionadas, recorda, via sempre “um olhar de muita desconfiança, até alguma repulsa”.

Em algumas situações, recorda, sente a tendência para as pessoas se afastarem ou “tentarem limpar”, em alturas nas quais a pele descama mais, o que causava algum desconforto. Mas ressalva: “Pode ser uma reação impensada, mas que para mim era desconfortável.”

Técnica superior na CIG (Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género), Anabela tem uma sensibilidade muito apurada para os estigmas da sociedade e, por isso, é com convicção que afirma que nunca sentiu nenhum tipo de estigma: “Os colegas podem olhar, querer saber o porquê de muitas vezes andar irritada, mas nunca senti discriminação.”

Não deixei de fazer nada pelo facto de ter psoríase
Não deixei de fazer nada pelo facto de ter psoríase

Além das lesões na pele, Anabela tem, atualmente, a designada artrite psoriática, diagnosticada há cerca de três anos. Foi numa viagem que exigiu caminhadas longas e muitas horas a pé que começou a sentir os sintomas, “muitas dores nos pés, nos braços, nas articulações de forma generalizada”. O que a princípio entendeu como cansaço era o sintoma da comorbilidade.

O percurso com psoríase faz-se com a gestão dos tratamentos, que passaram de cremes e pomadas para comprimidos e, neste momento, para os biológicos. Apesar de exigirem um grande controlo, Anabela reconhece que as melhoras são significativas. Este percurso, explica-nos, é feito em proximidade e codecisão com o dermatologista, que tem um papel fundamental na evolução dos doentes com psoríase. Sabe, contudo, que nem todos têm acesso aos mesmos tratamentos, e aponta para questões monetárias a relutância em apostar-se em terapêutica biológica.

Faz falta legislação, faz falta proteção, faz falta as pessoas serem tratadas como pessoas, faz falta que toda a gente tenha acesso a ir a um dermatologista
Faz falta legislação, faz falta proteção, faz falta as pessoas serem tratadas como pessoas, faz falta que toda a gente tenha acesso a ir a um dermatologista

Falar de assimetrias, em psoríase ou em todos os outros campos, é fácil para Anabela. A sua profissão mas também a sua sensibilidade permitem-lhe reconhecer o que é preciso mudar, ainda que não o sinta na pele.

É perentória em denunciar os tempos de espera para uma consulta em especialidade, sobretudo para patologias que não são letais: “Os Estados não olham para a saúde, e muito menos para este tipo de doenças, porque é uma doença que incapacita, mas não mata à partida, vai-nos matando, vai-nos diminuindo.” Esta espera, resume, traduz-se em falta de motivação para os pacientes, que se vão acomodando a não ter tratamentos adequados. A falta de informação de médicos de clínica geral, como os médicos de família, é também uma preocupação: “Desvalorizam.”

Vale a pena perceber, não é saber apenas por saber.
É saber e perceber
Vale a pena perceber, não é saber apenas por saber.
É saber e perceber

Voltando ao princípio da conversa, e agora já em entrevista, a técnica da CIG sublinha a correlação entre o stress e os episódios de psoríase – “com aquilo que nos acontece, de bom e de mau!” – e, por isso, um dos conselhos que mais repete é o de ser preciso “tentar manter a calma”. Ainda que, a princípio, não tenha sido fácil lidar com o diagnóstico, o tempo fê-la perceber que é fulcral “aprender a conviver” com a doença, tanto o paciente como os que o rodeiam. O espírito otimista fá-la fazer a ressalva de que “é uma doença que não tem cura, mas que poderá no futuro ter”.

Anabela já não se deixa abalar pelos olhares mais indiscretos e sabe qual deve ser o pensamento: “Todos podemos ser potenciais de tudo.” Não ter psoríase hoje não significa que não tenha amanhã, e também por todos “estarmos sujeitos”, devemos treinar a empatia e deixar os preconceitos de lado.

Admite que ser doente psoriática a faz ter mais cuidados consigo própria, estar mais atenta aos sinais do corpo e da mente, e sabe também que a capacitou (ainda mais!) para olhar para o outro com maior cuidado e maior empatia.

Se calhar comecei a olhar para as pessoas de outra forma
Se calhar comecei a olhar para as pessoas de outra forma

Ver na Pele

A psoríase vê-se. Mas como é que se sente? Como é que lidam os familiares, os amigos, a sociedade? Helena, Maria Luísa, David, Rita, Luís e Anabela inspiram-nos com os seus testemunhos, em conversas francas e descontraídas.